
O Observatório do Clima (OC) avalia que o Brasil deve priorizar energias renováveis e a introdução de sistemas de armazenamento por baterias (BESS) para o sistema energético nacional.
A organização defende a otimização da fonte hídrica sem a construção de novos reservatórios, por meio da modernização de usinas, repotenciação do parque existente e melhorias no modelo operacional. Além disso, propõe inovações, como hidrelétricas reversíveis e usinas solares flutuantes nos espelhos d’água das plantas existentes.
Essas são algumas das recomendações do OC ao governo federal, no contexto da elaboração do “Mapa do Caminho”. Despacho do presidente da República solicitou a diferentes pastas do governo a elaboração de uma proposta de resolução a ser submetida ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) com diretrizes para o “Mapa do caminho uma transição energética justa e planejada”.
“A preocupação principal do OC é que esse esforço do Mapa do Caminho, que se transformará provavelmente numa resolução do CNPE, não se transforme num mero exercício de retórica”, disse Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima. “O setor de energia é o que expõe os conflitos mais graves em termos de política ambiental e política climática no governo Lula III. O governo tem avanços consideráveis em temas como combate ao desmatamento, mas em energia nós temos tido problemas”, concluiu.
Carvão, óleo e gás
Entre os conflitos, a instituição indica o incentivo a fontes fósseis, como carvão mineral, petróleo e gás natural. Nas recomendações ao governo, a organização propõe zerar a produção de carvão mineral até 2030, mantendo o uso industrial por curto período de tempo.
“O carvão mineral não importa nada na nossa matriz energética, é 1,3% [da matriz]. A questão do carvão mineral é você ter um planejamento para a região”, disse Araújo.
Os pesquisadores do OC também indicaram que a geração pela fonte tem custos desproporcionais: “Em 2025, R$ 1,2 bilhão vieram da CDE para subsidiar a compra do carvão mineral. Isso é 18,53% da tarifa média paga pelos brasileiros destinados à CDE”, disse Nicole Oliveira, diretora do Instituto Arayara, que também compõe o OC. A organização criticou a contratação de térmicas a carvão no leilão de reserva de capacidade na forma de potência (LRCap).
Em óleo e gás, o OC recomenda a exclusão de áreas sensíveis para exploração petrolífera, como é o caso das bacias na região amazônica e na Bacia de Pelotas. Ambas as áreas são indicadas pela indústria de óleo e gás com novas fronteiras exploratórias, necessárias para a recomposição das reservas brasileiras.
O OC também recomendou elaboração de um cronograma para o país zerar os leilões de petróleo. Segundo as fontes do Observatório, a proposta está em criar políticas para a redução da demanda pelo petróleo, assim como formas de compensar a renda que esta atividade gera.
“Nós sabemos que isso impõe planejamento, impõe metas claras, datas, cronogramas”, reconheceu Suely Araújo. “Não é questão de baixar uma lei agora dizendo ‘a partir de amanhã todo mundo para de queimar petróleo e gás’, que obviamente não faz sentido. Mas como é que você está tomando o lado da demanda para alternativas para transporte, alternativas para a indústria, para que essa transição se faça”, complementou Shigueo Watanabe Jr., pesquisador do ClimaInfo.
Em coletiva de imprensa, os especialistas também indicaram que, num cenário de menor demanda pelo petróleo, o Brasil pode ter desvantagens em relação a outros produtores, e por isso pode ser perigoso ter uma grande dependência das receitas vindas com o petróleo.
“A gente tem grandes produtores, como Rússia, Emirados Árabes, Arábia Saudita, Catar, que conseguem produzir petróleo e gás natural com um custo muito mais baixo e uma intensidade de emissões mais baixas que a gente. Então, no caso de um choque de demanda no mercado internacional, a gente tende a ficar com prejuízo”, avalia Ricardo Baitelo, gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente.