
O Banco do Nordeste (BNB) reorientou temporariamente suas prioridades de financiamento diante do avanço do curtailment sobre a geração renovável centralizada no Nordeste. O banco passou a priorizar projetos de transmissão, armazenamento de energia e instalação de grandes cargas na região, nessa ordem, em busca de soluções para os gargalos que têm limitado a produção de usinas eólicas e solares.
A mudança não significa a interrupção dos financiamentos à geração, segundo apuração da MegaWhat. A instituição apenas teria direcionado suas prioridades para projetos capazes de contribuir para a superação das atuais restrições do setor elétrico.
Os dados divulgados pelo próprio banco mostram uma mudança no perfil dos financiamentos de infraestrutura. No primeiro semestre de 2026, o segmento recebeu R$ 4,12 bilhões, dos quais R$ 2,42 bilhões foram destinados à transmissão e distribuição de energia elétrica. Saneamento básico recebeu R$ 700 milhões e atividades portuárias, R$ 486,9 milhões.
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Em 2025, por outro lado, a geração solar aparecia entre os principais destinos dos recursos de infraestrutura. Naquele ano, os financiamentos do segmento somaram R$ 6,8 bilhões, com R$ 1,7 bilhão direcionado à energia solar e R$ 1,2 bilhão ao saneamento básico.
A reorientação ocorre em um momento de aumento das restrições à geração renovável, sobretudo no Nordeste. Em relatório de demonstração financeira de 2025, o próprio BNB reconhece que, a partir de 2024, eólicas e solares passaram a enfrentar redução no volume de geração em razão do curtailment.
Recursos do BNB para transmissão e armazenamento
O direcionamento também aparece nas novas fontes de recursos buscadas pelo banco. Uma das iniciativas em andamento é o Programa de Integração de Energias Renováveis do Nordeste (CIF REI/NE), parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) de US$ 67 milhões.
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Desse total, US$ 33,5 milhões virão dos Fundos de Investimento Climático (CIF). Os recursos serão destinados à modernização dos sistemas de transmissão e distribuição e a soluções de armazenamento de energia, com o objetivo de ampliar a integração e a estabilidade das fontes renováveis variáveis no Sistema Interligado Nacional (SIN). A operação aguardava aprovação final pelo Senado, com assinatura do contrato prevista para o segundo semestre de 2026.
Para todo o ano de 2026, o BNB estima R$ 13,48 bilhões em aplicações, dos quais R$ 10,26 bilhões deverão ser direcionados a projetos de infraestrutura. Entre 2021 e junho deste ano, o segmento respondeu por 65,66% do volume total de investimentos, com predominância histórica de energias renováveis, eólica e solar, e saneamento básico.
Financiamento entra na decisão de desistir de projetos
A mudança de cenário já aparece entre as justificativas apresentadas por empreendedores para revogar outorgas para novos projetos de geração.
Ao pedir a revogação das outorgas das usinas solares Novo Horizonte 1 a 3, com capacidade instalada de 90 MW em João Pinheiro, Minas Gerais, o empreendedor citou a suspensão, em 2026, de financiamentos do BNB para projetos eólicos e fotovoltaicos de geração centralizada como um dos fatores que tornaram o empreendimento inviável.
O pedido também apontou falta de perspectiva de conexão no curto prazo, esgotamento da margem de escoamento, aumento do curtailment e desinteresse de investidores diante dos frequentes cortes de geração. Segundo o empreendedor, esses fatores, somados ao prazo para implantação das usinas, inviabilizaram a continuidade dos projetos.
Apesar da mudança de prioridades para a geração centralizada, o BNB continua financiando projetos solares em outros segmentos. No primeiro semestre, por exemplo, o FNE Verde Sol Pessoa Física respondeu por R$ 38 milhões em contratações, distribuídas em 1.346 operações.