
Os ganhos obtidos pela Auren Energia com a modulação compensaram 91% do impacto financeiro do curtailment no primeiro semestre de 2026. A companhia defende mudança na lei para tratar os cortes por sofreoferta, e avalia outras formas de reduzir os impactos negativos da frustração da geração, incluindo a adesão ao termo de compromisso que vai viabilizar a compensação de cortes ocorridos entre setembro de 2023 e novembro de 2025.
“A companhia hoje estima que tem R$ 300 milhões a receber nesse processo. Nós estamos avaliando a declaração de intenção de assinatura, que não é vinculante e deve ser feita até o próximo dia 10 de agosto”, afirmou o CEO da Auren, Fábio Zanfelice, durante a teleconferência de resultados do segundo trimestre, realizada nesta quinta-feira, 6 de agosto.
O mecanismo, criado pela Portaria 140/2026 do Ministério de Minas e Energia (MME), abrange os cortes de usinas eólicas e solares classificados como decorrentes de confiabilidade ou indisponibilidade externa no período entre setembro de 2023 e novembro de 2025.
A estimativa da Auren é que a assinatura do termo definitivo ocorra por volta do segundo trimestre de 2027 e que os pagamentos comecem no segundo semestre do próximo ano.
As restrições por razão energética, associadas à sobreoferta de energia, não foram incluídas e, segundo Zanfelice, devem envolver uma nova discussão no legislativo, com envolvimento da micro e minigeração distribuída (MMG).
“O energético é uma discussão que tem que ser feita no Congresso”, afirmou. Segundo o executivo, o tema deverá voltar a ser discutido em 2027, depois das eleições e da mudança na composição da Câmara e do Senado.
Para a Auren, “todos os que dão causa” ao curtailment devem contribuir com o rateio dos impactos, não só a geração centralizada”.
Portfólio mitiga impacto
No primeiro semestre, a Auren registrou benefício de R$ 167,7 milhões com a modulação, diante de perdas de R$ 184 milhões provocadas pelos cortes de geração. O efeito líquido negativo ficou em R$ 16,3 milhões.
Segundo Zanfelice, o resultado demonstra a contribuição da diversificação do portfólio da companhia.
“Nós conseguimos neutralizar 91% do impacto negativo do curtailment através do benefício da modulação, sobretudo das fontes hidrelétrica e eólica”, disse.
A modulação reflete a combinação entre o perfil de geração dos ativos, as posições contratadas pela companhia e as variações do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) ao longo do dia. A maior parte dos contratos de venda de energia da Auren no mercado livre possui perfil constante.
A diferença entre os preços nos horários de maior e menor demanda aumentou em 2026. De janeiro a junho de 2025, o preço no submercado Sudeste/Centro-Oeste variou entre R$ 128 por MWh, no ponto mais baixo do dia, e R$ 232 por MWh no pico, uma diferença de cerca de 80%.
Nos primeiros seis meses deste ano, os valores variaram entre R$ 124 por MWh e R$ 396 por MWh. O preço no horário de ponta ficou, portanto, 220% acima daquele registrado no período de menor preço.
“Então isso explica de certa forma tanto o ganho de modulação maior como também o custo mais baixo de compra de curtailment”, afirmou Zanfelice.
A maior concentração dos cortes nos períodos de preços reduzidos diminuiu o custo da energia comprada pela Auren para cobrir as posições dos ativos atingidos pelas restrições.
Efeito no trimestre
Somente no segundo trimestre, os ganhos com modulação totalizaram R$ 70,5 milhões, alta de 75% ante os R$ 40,4 milhões registrados no mesmo período de 2025.
O valor compensou cerca de 72% do impacto de R$ 97,8 milhões provocado pelos cortes de geração, deixando um efeito líquido negativo de R$ 27,3 milhões entre abril e junho.
Do total, aproximadamente R$ 79 milhões decorreram de cortes por razão energética, R$ 14 milhões de restrições por confiabilidade e R$ 5 milhões da parcela não ressarcível dos cortes por indisponibilidade externa, anterior ao atingimento da franquia de horas.
Embora os ganhos de modulação tenham aumentado na comparação anual, ficaram abaixo dos R$ 97,2 milhões registrados no primeiro trimestre. A companhia atribuiu a redução à queda do nível dos preços de energia ao longo do período.
Cortes aumentaram
O segundo trimestre também foi marcado pelo aumento das restrições de geração no Sistema Interligado Nacional (SIN).
O curtailment das usinas eólicas atingiu 15,7% da geração potencial, equivalente a 2,2 GW médios. No mesmo período de 2025, os cortes haviam correspondido a 11,7%, ou 1,7 GW médios. No primeiro trimestre deste ano, o percentual foi de 14,9%.
Entre as usinas solares, as restrições atingiram 25,8% da geração potencial, ou 1,3 GW médio, ante 22,7% no segundo trimestre de 2025 e 16,2% nos três primeiros meses deste ano.
No portfólio da Auren, o impacto financeiro ficou concentrado nos ativos eólicos, com R$ 77,8 milhões no trimestre. As usinas solares responderam pelos R$ 20,1 milhões restantes.
A geração eólica da companhia caiu 9,9% na comparação anual, para 1.152,5 MW médios, afetada pela combinação entre o aumento do curtailment e um recurso eólico inferior ao esperado pela certificação dos ativos.
A geração hidrelétrica aumentou 8,9%, para 1.943,3 MW médios, enquanto a produção solar cresceu 7,2%, para 154,6 MW médios. Considerando os ativos próprios e as participações minoritárias em hidrelétricas, a geração total da Auren avançou 2,4%, para 3.513,3 MW médios.
Resultados financeiros
A Auren registrou prejuízo líquido de R$ 379,1 milhões no segundo trimestre de 2026, redução de 32,7% ante o resultado negativo de R$ 562,9 milhões apurado no mesmo período de 2025.
Segundo a companhia, a redução anual foi explicada principalmente pela menor geração eólica e pelo resultado mais baixo da atividade de comercialização. O curtailment mais elevado também afetou o desempenho, parcialmente compensado pelos ganhos com modulação.
Na comparação com o primeiro trimestre deste ano, quando o prejuízo foi de R$ 601,6 milhões, a perda diminuiu 37%. O valor do primeiro trimestre corresponde à diferença entre o prejuízo acumulado de R$ 980,7 milhões no semestre e o resultado negativo de R$ 379,1 milhões entre abril e junho.
A receita líquida somou R$ 3,055 bilhões, crescimento de 5,9% ante os R$ 2,886 bilhões registrados no segundo trimestre de 2025.
O resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado alcançou R$ 858,9 milhões, queda de 12,4% na comparação anual.
O segmento de geração apresentou Ebitda ajustado de R$ 902,1 milhões, queda de 4,7% ante o segundo trimestre de 2025. Na comercialização, o resultado passou de Ebitda ajustado positivo de R$ 53 milhões para valor negativo de R$ 17,2 milhões. A companhia atribuiu a variação principalmente à menor margem da atividade.
O resultado financeiro líquido foi negativo em R$ 732,1 milhões, ante despesa de R$ 644,5 milhões um ano antes e de R$ 589,8 milhões no primeiro trimestre.
Na comparação trimestral, a piora decorreu principalmente do aumento dos juros e da atualização monetária sobre o endividamento, com efeito de R$ 88,2 milhões, da atualização sobre provisões para litígios, de R$ 15,4 milhões, e dos custos associados à reorganização societária. A base do primeiro trimestre também havia sido beneficiada em R$ 25,9 milhões por uma decisão favorável à Auren em um processo de arbitragem.
A dívida líquida da companhia caiu R$ 194,2 milhões no trimestre. Apesar da redução, a alavancagem aumentou de 5,2 vezes ao final de março para 5,3 vezes a relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado em junho, devido à queda do resultado acumulado nos últimos 12 meses.
Apesar do aumento do endividamento, a companhia afirmou que a trajetória de desalavancagem segue em linha com o planejado, com estabilização em 2026 e queda a partir de 2027.