
A expansão dos data centers pode aumentar o desequilíbrio entre os horários de sobra e de maior demanda de energia no Brasil e pressionar os preços caso o país não amplie a oferta de potência para acompanhar o crescimento dessas novas cargas.
A avaliação é de Victor Soares, head de Energy Trading no Santander, que destacou durante painel do MinutoMega Talks que o consumo dos data centers ainda é relativamente pequeno no país, mas pode crescer quase 20 vezes nos próximos anos.
Hoje, o segmento representa cerca de 300 MW médios, ou entre 0,3% e 0,4% da carga brasileira, enquanto os pedidos e contratos de conexão considerados nas projeções chegam a 5,7 GW médios.
Segundo o executivo, o sistema elétrico brasileiro já convive com uma diferença relevante entre a oferta de energia ao longo do dia. O crescimento dos data centers adiciona uma carga de elevado consumo e funcionamento contínuo a esse cenário.
Soares citou como exemplo a diferença observada recentemente nos preços de energia ao longo de um mesmo dia, que ficaram em torno de R$ 50/MWh durante o período diurno e chegaram a R$ 1.000/Mwh à noite.
“Com essa demanda gigantesca nos próximos quatro anos, essa energia na ponta vai ficar cada vez mais cara”, disse.
Para o executivo, a situação pode produzir efeitos que ultrapassam os próprios data centers. Caso o país não consiga adicionar potência a custos competitivos, o aumento da demanda nos horários mais críticos poderá elevar os preços da energia e produzir reflexos indiretos sobre as tarifas dos demais consumidores.
“Se nós não resolvermos o problema de potência, que ela seja uma potência barata, provavelmente haverá um aumento de preço de energia”, afirmou.
A preocupação ocorre em meio à perspectiva de forte avanço da demanda do segmento. Segundo Victor Soares, os data centers atualmente consomem energia equivalente a uma cidade de aproximadamente 1,2 milhão de habitantes. Caso a expansão projetada se concretize, a nova carga poderia alcançar uma dimensão comparável à de um estado como o Paraná.
O executivo ressaltou, porém, que nem todos os pedidos de conexão necessariamente se transformarão em projetos. Ainda assim, o volume sinaliza a dimensão da demanda potencial que poderá ser incorporada ao Sistema Interligado Nacional (SIN) até o fim da década.
Efeito já aparece nos modelos de preço
Mesmo antes da entrada dessas cargas, a expectativa de crescimento dos data centers já começa a ser incorporada aos cálculos do setor elétrico.
O head do Santander explicou que os modelos utilizados para projetar a operação do sistema consideram a expectativa de consumo dos próximos anos. Com a previsão de aumento da carga, cresce a necessidade de preservar água nos reservatórios hidrelétricos para atender à demanda futura, o que pode elevar o custo calculado da energia no presente.
“Essa previsão de consumo dos data centers já começa a influenciar o preço de energia da data de hoje”, disse Soares.
Data center também pode ajudar a rede
Apesar dos riscos, o executivo avalia que a nova carga não precisa necessariamente representar apenas um problema para o sistema. Projetos estruturados com baterias e mecanismos de flexibilidade poderiam contribuir para aproveitar melhor os períodos de elevada geração renovável.
Segundo ele, sistemas de armazenamento associados aos data centers poderiam reduzir a utilização da rede nos horários de ponta e permitir maior consumo nos períodos em que há abundância de energia. “O data center não é o problema, ele pode ser a solução”, afirmou.
O desenho permitiria, por exemplo, carregar baterias durante os períodos de maior oferta e utilizá-las nos momentos de maior restrição da rede. Para Soares, essa configuração poderia liberar capacidade de transmissão nos horários críticos e melhorar o aproveitamento da infraestrutura existente.
“O data center desenhado da forma correta vai permitir você ter uma rede mais otimizada e mais barata”, disse.
Além disso, o aumento da base de consumo poderia ajudar a diluir custos do sistema entre um número maior de consumidores.
Para o executivo, portanto, o impacto da expansão dos data centers dependerá não apenas do tamanho da nova carga, mas de como ela será integrada ao sistema e, principalmente, da capacidade do país de ampliar a oferta de potência e criar mecanismos para tornar esse consumo mais flexível.