
Para o vice-presidente de Comercialização e Regulatório da CTG Brasil, Evandro Vasconcelos, não há tanta sobreoferta de energia no Brasil, apesar dos elevados níveis de curtailment no país e dos desafios para gerenciar o despacho das fontes.
“Há uma outra oferta, que é a de contratos. O que faz preço, principalmente para a grande indústria, é o contrato de longo prazo, que é transacionado em cima de uma garantia física”, disse o executivo, lembrando que as usinas não transacionam a totalidade de suas garantias físicas. “Quando você vai olhar o balanço mesmo de formação de preço de contrato, a sua oferta é muito pequena em pouco tempo ela se acaba”, disse o executivo durante o evento MinutoMega Talks, nesta quinta-feira, 20 de agosto.
Em função de gargalos como o curtailment, que acontece para gerenciar o despacho no curto prazo, novos projetos de geração estão desacelerados, ao mesmo tempo em que a demanda de energia cresce no país. Com isso, Vasconcelos projeta que haverá aumento nos preços de energia.
“Já está gerando sinal de preço. Há dois anos, nós estávamos vendendo energia a R$ 130,00 / MWh um contrato de longo prazo. Hoje é R$ 200 / MWh, R$ 250 / MWh. Dobrou de preço em dois anos. E esse sinal de preço, ele pode ser extremamente estressado em poucos anos. Em 2028, 2029, 2030, nós podemos ter um estresse de preço aqui”, avalia o executivo. “Então é preciso pensar em resolver os gargalos de longo prazo, e pensar em sinais para a expansão”, avalia.
Com o aumento nos preços, pode haver um novo ciclo de geração de energia, que deve vir pela expansão térmica ou eólica, em função da alta complexidade ambiental de novos projetos de geração hidráulica, na avaliação de Vasconcelos.
A CTG tem portfólio de 9 GW distribuídos em 12 hidrelétricas, 12 parques eólicos, além de um parque solar no Brasil.
Repotenciação de hidrelétricas e extensão das concessões
Apesar de não ver as hidrelétricas contribuindo com o aumento na oferta de energia, Vasconcelos avalia que a geração hídrica pode resolver, pelo menos em partes, o déficit de potência no sistema brasileiro. “Resolve parcialmente, mas resolve a um custo baixo e num tempo curtíssimo”, diz o executivo.
Para isso, entretanto, será preciso resolver o gargalo das concessões vincendas. “Boa parte dessas usinas estão com o prazo de concessão vencendo em oito, dez anos. Não é capaz de amortizar o investimento”, disse o executivo, que parabenizou a concorrente Engie pela iniciativa de repotencializar a UHE Salto Santiago, e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) por viabilizar a regulação para o movimento.
Vasconcelos avalia que a extensão das concessões é a melhor forma de viabilizar a repotencialização das plantas. “Aí eu só vou resolver o problema da ponta daqui a 10 anos”, explica o executivo da CTG.
Aventureiros na comercialização e racionalidade econômica do consumidor
Considerando a volatilidade dos preços de energia, Vasconcelos avalia que este é um ponto de alerta no contexto de abertura do mercado livre no país, para evitar a atuação de varejistas que não tenham resistência à flutuação de preços e apresentem problemas de liquidez.
“Se abrir um mercado varejista sem criar regras ou barreiras à entrada de aventureiros, nós vamos viver o que vivemos no mercado livre, que é um mundo de quebradeira. É um indivíduo que entra para jogar um all-in, mas ele entra no all-in com a perda é o dinheiro do outro, o ganho é o meu bolso. Esse cara sai milionário e gera uma perda para o mercado absurda”, disse o executivo da CTG.
Assim, para ele, é fundamental haver barreiras como chamada de aporte para garantia financeira, que acaba afastando empresas com menor lastro e robustez.
Vasconcelos também avalia que, no mercado livre, o consumidor poderá ter ganhos econômicos, mas também precisará se adaptar ao preço horário, modulando seu consumo às tarifas de energia.
Apesar disso, o executivo acredita que será preciso reduzir os encargos para que o mercado livre seja realmente interessante ao consumidor. “Ter um mercado livre onde eu pago 80% em encargo, para ter desconto de 5%, 10%, em cima de 20% [restantes depois do encargo], o desconto é mínimo, ninguém vai migrar para esse mercado”, disse.
Assim, mais do que embutir os encargos no preço de energia, Vasconcelos avalia que a melhor alternativa é reduzir os encargos. “A maior parte do encargo no Brasil é feito de subsídio escondido. Não sou contra o subsídio, […] mas há um excesso no Brasil”, disse.