
Pequenos recursos, como baterias e painéis solares domésticos e baterias de veículos elétricos poderão, em um futuro próximo, abastecer o sistema como se fossem uma única usina. O sistema, chamado de usinas virtuais (VPPs, na sigla em inglês de virtual power plants), já operou em regiões como Austrália e Califórnia durante verões críticos, evitando apagões e aumento no custo de energia.
Esta é uma das dez ‘megatendências’ no setor de energia indicadas pelo relatório 10 Energy Megatrends 2025”, produzido pelo Energy Summit e a MIT Technology Review Brasil. Segundo o estudo, há, nos Estados Unidos, mais de 100 GW elegíveis para VPPs.
Para o CEO do Energy Summit e VP de Energia e Sustentabilidade da MIT Technology Review Brasil, Hudson Mendonça, as VPPs devem se consolidar “em menos de dez anos”. O especialista reconhece que há desafios regulatórios, tanto no Brasil quanto em outros países, como uso de infraestruturas de distribuição e uso do fio.
“A inovação vem antes da regulação, que vai ter de apresentar um posicionamento em relação a isso”, adianta Mendonça, indicando os sandboxes e sistemas off-grid como possibilidades para testar o formato.
Segundo o relatório, as VPPs têm como vantagem oferecer aumento na capacidade energética “em meses, não em anos”, a custo bastante baixo. Além disso, estes sistemas podem representar vantagem para o consumidor que oferecer a energia gerada ou armazenada em seus dispositivos.
Novos modelos de baterias
Outra “mega tendência” está nas pesquisas de outros minerais além do lítio para a fabricação de baterias para armazenamento de energia. O relatório indica que, mesmo com a queda de preço das baterias atuais, é arriscado depender de poucos minerais e poucos fornecedores. Os especialistas apontam que a diversificação de tecnologias reduz a fragilidade do sistema e pode abrir espaço para opções de melhor custo e acesso.
Um dos expoentes nestes novos formatos são as baterias de sódio, segundo o relatório. “Antigamente, eram baterias muito grandes e pouco eficientes. Hoje, isso deu uma pirueta. Já há grandes plantas mundiais produzindo essas baterias muito mais baratas, muito competitivas e que conseguem, de alguma forma, ser uma alternativa para determinadas aplicações”, indica Luiz Mandarino, diretor executivo do Energy Center da MIT Technology Review Brasil e diretor de Empreendedorismo e Startups do Energy Summit.
O relatório também indica que a capacidade instalada de baterias no mundo segue batendo recordes como custos decrescentes à medida que a escala aumenta.
Data centers e inteligência artificial
O relatório também destaca o impacto de data centers e inteligência artificial sobre o mercado de energia. Informações da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), indicam que os data centers consumiram 460 TWh em 2023, em um consumo que pode chegar a 945 TWh até 2030, diz o relatório. “Porém, com o crescimento exponencial do uso de IA (inteligência artificial), o consumo nos data centers pode quadruplicar no mesmo período”, adianta.
O relatório ainda reconhece que as infraestruturas, como linhas de transmissão, podem representar um gargalo para este crescimento, passando a influenciar preços e prazos de novos projetos.
Em relação ao consumo por IA, a parcela destas tecnologias no consumo total de data centers pode saltar de entre cerca de 5% e 15% hoje em dia, para 35% a 50% em 2030.
Outras tendências
O relatório produzido pelo Energy Summit e a MIT Technology Review Brasil também indica que o uso de tecnologias que reduzem a emissão de carbono em atividades de óleo e gás deve ser uma tendência nos próximos antes. Nesse sentido, o estudo destaca o Hisep, da Petrobras, que faz a separação de fluidos no fundo do mar e reinjeta o CO2 sem passar pela superfície.
O biometano e o biogás foram outro destaque no relatório. Segundo o documento, com regulação e financiamento, a produção global poderia mais do que duplicar até 2030. O Brasil, com grande produção agrária, poderia se destacar neste mercado viabilizando a descarbonização da matriz de transporte rodoviária a um custo competitivo.
Os veículos híbridos também devem se destacar, sendo solução-ponte em mercados onde os elétricos ainda enfrentam barreiras de preço e infraestrutura de abastecimento e garantindo a redução nas emissões do setor automobilístico.
A descarbonização do setor marinho, com uso de novos combustíveis, também deve se acelerar nos próximos anos. Segundo o relatório as encomendas de navio com combustível alternativo “cresceram fortemente” em 2025, lideradas pelo e-metanol . Há, ainda, dezenas de pedidos e projetos de navios que consideram a amônia como combustível, diz o documento.
A segurança e a proteção contra ataques nas redes se fortalecerá como tendência nos próximos anos, segundo os estudiosos. Um desafio comum estará na delicada geopolítica de energia e cadeias críticas, com minerais estratégicos, semicondutores e rotas marítimas como fatores importantes nas políticas industriais globais.
*Matéria editada às 15h25 para correção de identificação de Luiz Mandarino. A fala estava atribuída a Rafael Marquez