
A Thymos Energia estima que o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) médio deve registrar cerca de R$ 170/MWh durante a primavera, que começa no dia 22 de setembro. O cenário considera condições mais favoráveis para os reservatórios e a perspectiva de chuvas dentro da normalidade ou ligeiramente acima da média nos próximos meses.
Para a consultoria, a combinação da manutenção de níveis satisfatórios durante o período seco, que se encerra em setembro, aliada a uma perspectiva favorável para os próximos meses, contribui para um cenário de preços moderados, embora as projeções possam variar conforme a evolução das afluências, da demanda elétrica e das condições de geração ao longo do período.
O período seco com hidrologia acima da média, seguida por uma primavera com chuvas também abundantes são efeitos do El Niño, que já se mostra um evento “muito forte” e deve perdurar até o outono de 2027, segundo a Nottus Meteorologia, empresa do mesmo grupo que a Thymos.
El Niño deve ter chuvas distribuídas e favorecer ventanias até o fim do ano
O fenômeno El Niño deverá provocar chuvas mais distribuídas no país do que o observado entre 2023 e 2024, projeta a Nottus. Com mais alternância entre temperaturas altas, as frentes frias poderão provocar mais áreas de instabilidade, originando episódios de ventanias.
“A chuva sendo bem distribuída, ou não tão concentrada, acaba proporcionando até mais eventos desses, porque não ficam só restritos ao sul do Brasil”, diz o sócio-diretor da Nottus, Alexandre Nascimento. Ele indica que recentemente houve fenômenos como estes nas áreas de São Paulo, Mato Grosso do Sul, chegando até a Rondônia.
O especialista também lembrou que as tempestades que causaram os apagões em São Paulo em novembro de 2023 e outubro de 2024 ocorreram sob esta mesma dinâmica de instabilidade provocada pela chegada de uma frente fria após dias de temperatura elevada. Nestas ocasiões, as ventanias provocaram quedas de árvores sobre a fiação aérea, o que foi indicado pela concessionária Enel São Paulo como fator relevante para o tempo de restabelecimento do serviço.
Para Nascimento, a possibilidade de formação de ventanias deve ser acompanhada tanto pelas distribuidoras quanto pelas transmissoras, em função do impacto dos ventos sobre a fiação aérea.
Diferenças em relação ao El Niño de 2023-2024: ‘Muito mais fraco do que esse’
A Nottus indica que o atual El Niño já alcança 2ºC em aumento nas temperaturas médias, o que o classifica como evento ‘muito forte’. “Será histórico se ultrapassar os 2,5ºC durante um trimestre ou mais”, disse Nascimento. Segundo o especialista, há regiões, como a costa do Chile e do Peru, que já ultrapassaram os 3,5ºC, chegando a quase 4ºC em alguns momentos.
Assim, o fenômeno neste ano já é mais intenso do que o de 2023-2024. “É um dos mais fortes já registrados. O El Niño de 2023 e 2024 foi muito mais fraco do que esse”, comentou Nascimento.
Apesar de ter mais intensidade, os feitos do fenômeno no Brasil devem ser diferentes daqueles observados entre 2023 e 2024. Nascimento explica que, naquela ocasião, havia vários bloqueios sobre o Brasil, e as frentes frias que chegavam pelo Sul do país não conseguiam se deslocar além do Rio Grande do Sul na maior parte do tempo, provocando ‘chuvas ininterruptas’’.
“O volume de chuva muito elevado casou com marés muito altas na época, foi pouco efetivo para drenar essa água para o oceano, e o problema que a gente teve naquele ano foi realmente assustador”, disse o especialista, em relação às enchentes no Rio Grande do Sul registradas em 2024.
“Esse ano está muito diferente, porque praticamente todas as frentes frias que estão chegando ao Sul estão conseguindo subir, ora até o Paraná, ora até São Paulo, agora em setembro choveu bastante em Minas Gerais”, disse Nascimento.
Impactos do El Niño sobre chuvas e formação de ondas de calor
O sócio-diretor da Nottus também observa que, agora, o Atlântico está com temperaturas mais elevadas, o que também favorece a formação de chuvas. Com isso, a consultoria meteorológica projeta chuvas na média ou acima da média em quase todo o país, inclusive em parte da região Norte. Já o Nordeste e parte da Amazônia devem ter chuvas bem abaixo da média.
Para Nascimento, na maior parte do país, as chuvas estão superando as expectativas, que já eram de hidrologia abundante. Com um período seco com boa hidrologia, os reservatórios devem chegar abastecidos ao verão. “E as temperaturas não explodindo tanto nas grandes cidades, isso também tem um impacto favorável [com menor consumo de energia]”, observa o especialista.
Há, entretanto, previsão de formação de ondas de calor, sobretudo nos intervalos entre os períodos chuvosos.
Impactos do El Niño sobre geração hidráulica, solar e eólica
Com chuvas acima da média no período seco, a queda dos reservatórios deve ser suavizada. A região Sul deve ser a mais favorecida, com chuvas em suas principais bacias, indica a Nottus.
A geração solar deverá ser prejudicada sobretudo na geração distribuída das regiões de maior pluviosidade, como Sudeste. “Mas quando a gente pega o cinturão solar, por exemplo, ali entre norte de Goiás, norte de Minas, Bahia, Piauí, continua tendo um sol para cada um, e isso vai mantendo a geração solar muito intensa. Pelo interior, pensando em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, também está tendo muito sol. Então, de forma geral, a gente está com uma geração solar ainda muito intensa”, avalia Nascimento.
A geração eólica também deverá perceber benefícios com as chuvas concentradas na porção centro-sul do país. “Proporciona uma safra de ventos bastante significativa”, observa Nascimento.
O El Niño deve perdurar durante a primavera e o verão, durando possivelmente até o outono de 2027, quando já deve começar a perder sua intensidade, avalia a Nottus.
*Nota editada em 18/096 às 09h28 para edição. O período que se encerra em setembro é o período seco, e não o úmido, como constava anterioremente.